quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Alusão ao Livro Entardecer

Entardecer


         Não é o que recebemos mas o que damos que revela o valor da vida que vivemos... é com estas palavras de dedicatória que o autor de “Entardecer”, publicado em Fevº 2012, acaba de oferecer à Revista de Marinha, na pessoa do seu diretor, esta pequena obra, genuina e despretensiosa, que merece ser conhecida e  lida por muitos.
         Ao ser-me pedida uma recensão, não posso deixar de dizer com toda a sinceridade e emoção, que este pequeno livro, certamente merecedor de uma revisão cuidada, não pretende concorrer a nenhum prémio literário, mas oferece, com toda a simplicidade, o retrato inspirador de um homem, autodidata, lutador e heróico sobrevivente de uma vida que se revelou adversa desde tenra infância.
         Na verdade, com uma bonita e sugestiva capa de um jovem que se faz ao mar, levando um barco pela mão, este livro oferece-nos através de um personagem de seu nome Manuel, um retrato auto-biografico de Américo da Silva Lourenço, que aos 48 anos olha para trás e resolve passar ao papel factos reais, dolorosas recordações, mas também uma mensagem de gratidão a todos quantos o ajudaram até aqui, na esperança de poder ajudar outros leitores mais bafejados pela sorte, ou talvez com dificuldades semelhantes e sem esperança.
         Ao longo de toda a sua vida tem procurado sobreviver, quase de forma sobrehumana, aos múltiplos traumas físicos e psicológicos que o marcaram desde a infância. Nascido “sem berço” numa família disfuncional, sem carinho familiar e sob grande violência verbal e física, agravada pelo alcoolismo do pai, com profunda carência das mais elementares condições materiais,  para cúmulo de infortúnio, foi vítima de acidentes gravíssimos e dolorosos : atropelamento por um comboio aos 4 anos, a que se seguiram mais dois atropelamentos por automóvel alguns anos mais tarde; na verdade, estes acidentes foram fruto da negligência tão habitual em famílias que vivem em grande pobreza e onde por vezes, como foi o caso, é a mãe quem sai de casa cedo e regressa bem tarde para sustentar as bocas de todos. Como é possível imaginar, parte da sua vida tem sido passada em camas de hospital, ao ritmo das várias dezenas de dolorosas operações e tratamentos a que teve de se sujeitar, somando horas sem fim, semanas e meses de intensa solidão, sofrimento e desamor...
         Como foi possível sobreviver e ser hoje um profissional de segurança no Porto de Sines?
         É essa a parte mais bonita e comovente desta pequena - grande obra!
Américo Lourenço quer dar-nos a conhecer as suas âncoras de salvação : os transeuntes que foi conhecendo e os amigos que foi fazendo e que o protegeram, vestiram, alimentaram e socorreram em momentos mais trágicos ( entre os quais professores que o acompanharam nos primeiros anos de dificuldades escolares); os “missionários” da Igreja Evangélica que lhe ofereceram mensagens de esperança, o convidaram e o levaram a uma igreja, alimentando o corpo e a alma com alimento material e espiritual, e mais tarde lhe deram casa digna e trabalho; e por fim, o próprio navio missionário ( da Igreja Evangélica alemã)  - a maior biblioteca ambulante, de seu nome DOULOS (palavra grega que significa aquele que serve), onde pôde embarcar como voluntário e tripulante por duas vezes e onde descobriu a paixão pelo Mar e atividades marítimas ... a partir dos seus 15 anos.
         Américo Lourenço é um homem bom, corajoso e sensível – como o revela a sua poesia e os amigos aqui testemunham! - com um sorriso quase de criança, sempre desejoso de aprender mais e ajudar os outros. Podia ser um revoltado, um delinquente, um sem-abrigo, mais uma vítima caída na berma lamacenta da estrada da vida, como tantos outros nascidos em  melhores condições. Graças a Deus assim não aconteceu, e por isso merece ser lido, conhecido e admirado.  Como ele diz na introdução: Entardecer é uma alusão às coisas boas, que demasiado tarde aconteceram na minha vida  e  mais adiante ... escrever um livro (...) é também a oportunidade que tenho de dar um pouco de mim a outros(...). Obrigada, Américo Lourenço! Felicidades!
         Um agradecimento também à Chiado Editora por querer dar oportunidade aos mais simples dos “escritores”, ao afirmar que ... um livro é um encontro entre duas pessoas através da palavra escrita e dizendo-nos em letra pequenina logo no início ... o nosso desafio é merecer que este livro faça parte da sua vida. Ele acaba de se tornar parte da minha! Muito obrigada.
         O livro encontra-se à venda....tem o custo de....Para mais informações, contactar....


                                                                                    F.F.


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